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Lote de prédios com mais conforto

Rio Negócios - 26/09/2011

Até 2013, a participação dos edifícios sustentáveis no total dos empreendimentos corporativos deve ser de 37%

Aprincípio, trabalhar no edifício Air Offices,em Alphaville, Barueri, região metropolitana de São Paulo, vai exigir adaptação de quem está acostumado à austeridade das salas de reuniões da supermetrópole. O espaço foi projetado ao ar livre, em meio às árvores de um trecho da Mata Atlântica, com direito à participação de passarinho nativo. "Bem-estar e qualidade de vida estão diretamente relacionados com os conceitos de sustentabilidade na construção civil", afirma o presidente da clavi Incorporadora, Vitório Panicucci. "E a interação do homem com a natureza faz parte desse processo." Graças a essa linha de raciocínio, o empreendimento é o primeiro de Alphaville a receber certificação AQUA (Alta Qualidade Ambiental) em três níveis: conceito, projeto e obra. Trata-se de um selo baseado no sistema de avaliação de sustentabilidade da francesa Haute Qualité Environnementale, adequado e implantado no Brasil pela Fundação Vanzolini, da Universidade de São Paulo.

Para atender a todos os critérios, os cuidados adotados pela Clavi começaram na compra do terreno. O local escolhido mantém uma Área de Proteção Permanente (APP). "O planejamento inicial evita o aumento de custo da obra", avalia Panicucci.

A ideia, explica o empresário, não é só certificar que o prédio é feito de material verde ou é dotado de sistemas de última geração. Mas atestar também que a obra não prejudica o planeta, não causa danos à saúde das pessoas e não provoca transtornos à vizinhança. Um trabalho que exige a conscientização de todo o grupo envolvido no projeto.

Ele cita como exemplo o piso elevado desenvolvido para o jardim do empreendimento, assinado pelo paisagista Benedito Abbud, que, além da redução de 35% do consumo de água, não demanda mão de obra para regar as plantas, proporciona conforto térmico para as garagens e impede as fissuras, porque impermeabiliza paredes ou lajes."É um pacote de benefícios.

Vantagens como essas se destacam dia a dia no segmento. De acordo com dados do segundo trimestre deste ano da Cushman & Wakefield, consultoria em serviços imobiliários corporativos, embora o estoque de prédios verdes ainda seja pequeno no Brasil, o movimento vem ganhando força rapidamente. Dos 17 milhões de metros quadrados disponíveis no país, atualmente apenas 3,5% se enquadram no conceito. E os destaques são metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, nesta ordem. Mas, no novo estoque previsto para 2013, esse percentual salta para 37%, sendo que Alphaville, em Barueri, onde está o Air Offices, da Clavi, terá uma parcela importante do volume previsto.

"Essa evolução reflete a tomada de decisão do investidor", avalia o diretor de engenharia e sustentabilidade da Cushman & Wakefield para América do Sul, João Alves Pacheco. Ele explica que o ciclo de vida de um edifício é de 50 anos em média e 95% dos custos são provenientes desse período. "A parcela da obra nem se compara àquela relativa à gestão do empreendimento", diz Pacheco."Faltam políticas públicas para disseminar esse conceito além das principais capitais do país."

O diretor comercial da São Carlos Empreendimentos, Marcelo Scarabotolo, concorda com Pacheco. A empresa está por trás do Eldorado Business Tower, edifício que obteve o LEED - Platinum, o mais alto nível de certificação Greenbuilding concedido pelo United States Greenbuilding Council (USGBC). Trata-se do primeiro empreendimento certificado nessa categoria em toda a América Latina, o oitavo no mundo e o terceiro fora dos Estados Unidos, país de origem do USGBC.

"O custo adicional da obra é muito baixo se comparado com a economia da operação futura", diz. Segundo Scarabotolo, a atratividade comercial de empreendimentos como o Eldorado Business é imensa. "É um investimento de alta liquidez, porque está alinhado à política global do setor corporativo, principalmente das multinacionais que trazem uma cultura mais madura da matriz".

A eficiência energética e o reúso da água são os pontos mais discutidos hoje em dia,mas os cuidados para atestar a sustentabilidade do empreendimento passam por detalhes muitas vezes despercebidos. Atualmente, até os produtos de limpeza são selecionados com zelo, para não prejudicar a saúde de quem limpa, além dos demais ocupantes. É preciso cuidado, pois algumas misturas voláteis são tóxicas.

"O trabalho é complexo e é preciso até mesmo desenvolver fornecedores específicos, que não agridam o meio ambiente", avalia Scarabotolo. "Não adianta nada manter um sistema de ar refrigerado de última geração se a instalação e a manutenção não forem corretas." Nesse caminho, acredita o executivo, a tendência é de crescimento de certificação da operação, e não apenas da obra. "Além de construir, temos um potencial enorme para reformar imóveis comerciais e transformá-los em sustentáveis", diz. Um trabalho que pode ser conferido no Edifício Venezuela, planejado para estrear a Operação Urbana Porto Maravilha - projeto de revitalização da região portuária do Rio de Janeiro.

Localizado entre a praça Mauá e o Morro da Conceição, com cerca de quatro mil metros quadrados de área locável, o empreendimento passa por um retrofit completo e pleiteia a certificação LEED, selo do USGBC. Para fazer as melhorias, a São Carlos investirá R$ 14 milhões. Seu destaque sustentável será o bicicletário com vestiário acoplado. No portfólio da São Carlos estão 43 imóveis - mais de 400 mil metros quadrados de área locável própria -, com valor de mercado estimado em R$ 2,24 bilhões.

Para construir uma trajetória menos poluída, empresas como a São Carlos contam com apoio de especialistas. É o caso da Johnson Controls, uma das principais fornecedoras de equipamentos, controles e serviços para aquecimento, ventilação, ar condicionado, refrigeração e sistemas de segurança para edifícios. Das filiais espalhadas em mais de 150 países, a companhia entrega pacotes completos que aumentam a eficiência energética e reduzem custos operacionais para mais de um milhão de clientes, entre os quais a prefeitura de Recife.

Construído na década de 70, o edifício-sede da prefeitura, localizado no histórico bairro de Recife Antigo, tem 17 pavimentos. Seu sistema de ar condicionado central, desgastado e com mais de 30 anos de utilização, teve de ser readequado aos conceitos modernos, com ênfase na contenção do consumo de energia elétrica e otimização das operações. Para atender ao Programa Anual de Eficiência Energética (PEE), às normas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e à Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), a Arclima e a Johnson Controls desenvolveram um projeto de retrofit do sistema existente, que resultou numa redução de 30% no consumo de energia.

Uma medida simples, mas que fez grande diferença, foi a mudança das torres de resfriamento, anteriormente montadas na cobertura do edifício, para o pavimento térreo. As novas torres foram instaladas próximas à Central de Água Gelada (CAG), com o objetivo de gerar menor arraste e tratamento químico da água, como também maior facilidade de manutenção.

Na avaliação do vice-presidente de meio ambiente do Sindicato da Construção de São Paulo (SindusCon-SP), Francisco Vasconcellos, desde a abertura do mercado na década de 90 o setor experimenta uma acelerada evolução, com acesso a modernas técnicas e padrões mundiais de qualidade. "O salto a partir dos anos 2000 criou uma dinâmica importante na indústria", afirma. "Adotar as normas necessárias ao viés ambiental não é tão difícil quando os processos de gestão de qualidade já são tratados como estratégicos pela empresa."

E toda essa revolução ganhou corpo com a questão da mudança climática, que demandou uma certificação em prol do planeta, criando sistemas americanos como o LEED, entre outros. "As empresas passaram a exigir esse tipo de controle, e isso explica o avanço do segmento corporativo, apesar de não existir dado concreto do que acontece efetivamente.

As construtoras responderam rapidamente por uma conta simples. Ao incorporar tecnologia de ponta em edifícios corporativos, os custos administrativos caem. À frente da operação do empreendimento, com uma gestão profissional, o condomínio fica muito mais barato. O que nem sempre acontece no segmento residencial, no qual a aplicação de um sistema pode onerar a construção e o preço Snal ao comprador, para quem o mais barato é mais viável. A construtora ou incorporadora teria de absorver os custos. "Ser sustentável não é voltar a ser primitivo. É alta tecnologia embarcada, o que requer uma política pública eficiente." Mas não vai demorar muito, acredita Vasconcellos, e todo aquele que não tiver a qualidade ambiental exigida pelo consumidor estará fora do mercado. "A tendência é que tudo isso vire commodity."

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