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Quase metade dos novos prédios corporativos serão “verdes”

Gazeta do Povo - SP 30/12/2011

Custo de construção de edifícios ambientalmente corretos é mais alto. Mas, depois de prontos, eles consomem até 30% menos luz e 50% menos água

Edifícios "verdes" - isto é, construções ambientalmente corretas do ponto de vista dos métodos de edificação, dos materiais e do uso de energia e água - correspondem a 48,4% dos lançamentos corporativos previstos para o mercado curitibano até 2013. O porcentual é superior às estimativas feitas para São Paulo (47,2%) e Rio de Janeiro (40,8%), o que coloca Curitiba em posição de destaque no país. Estima-se que levantar um prédio desse tipo custe entre 5% e 8% a mais que pelos processos convencionais, uma diferença que é compensada pela velocidade de locação, maior do que a de outros empreendimentos.

Os dados são da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield, que atua como certificadora de projetos imobiliários sustentáveis. Segundo o levantamento da empresa, Curitiba acrescentará 78,8 mil metros quadrados de edificações verdes aos 7,8 mil metros quadrados já existentes. Toda essa área está em novas torres corporativas - projetos com lajes superiores a 500 metros quadrados, nos quais grandes empresas assumem um ou mais andares para abrigar seus escritórios, geralmente por meio de locação. Entre os empreendimentos em gestação nessa área estão o Aroeira Office Park, da Aroeira Administração; o Iguaçu 2820, da Laguna Construtora & Incorporadora Ltda; e o AR 3000 Cabral Corporate and Offices, da Construtora Andrade Ribeiro.

"Não é coisa de ecochato", diz arquiteta
A aceitação dos edifícios certificados em Curitiba se dá por razões comerciais. "O incorporador percebeu que há ganhos, as empresas estão aceitando muito bem", diz a arquiteta Sandra Pinho Pinheiro, sócia da consultoria Petinelli, que oferece soluções em sustentabilidade e edificações verdes. Segundo ela, recursos como água e energia tendem a se tornar menos abundantes nos próximos anos, e são justamente esses os itens que, por meio de um uso mais racional, os projetos sustentáveis buscam economizar. "Quem não for eficiente desde o início terá uma taxa de condomínio mais alta e corre o risco de sofrer com interrupções de energia, por exemplo. Isso atinge diretamente o mercado, não é coisa de ecochato."

O consultor Marcos Kahtalian, da Brain, segue a mesma linha. "O item menos importante é esse lado romântico, de poupar o meio ambiente. O ponto central é a eficiência energética", comenta. Grandes empresas precisam de alta disponibilidade de energia e esse é um componente essencial dos custos para elas. Se puderem economizar energia no edifício, seu custo de operação cai.

De acordo com o GBC Brasil, a economia chega a 30% na conta de luz, de 30% a 50% na de água e de 70% a 80% na coleta de resíduos. Isso reduz os preços dos condomínios e permite que os proprietários cobrem um aluguel mais alto. Kahtalian diz, entretanto, que esse sobrepreço tende a se diluir com a oferta crescente de empreendimentos do gênero. "Vejo os incorporadores encarando o green building como uma definição de produto, não como um agregador de preço", afirma. Benefícios adicionais, diz o consultor, são fatores como
um melhor clima organizacional, um ambiente mais saudável para us funcionários e uma melhora na imagem corporativa da empresa.

Em Curitiba, a concentração de lançamentos verdes se dá na faixa dos grandes empreendimentos corporativos - aquele topo de prédio em que cada empresa ocupa, pelo menos, metade de um andar e as lajes têm área superior a 500 metros quadrados. Quem busca o segmento médio, com lajes de 200 a 400 metros quadrados, não parece tão interessado na certificação. "Para esse público, a oferta de vagas e a localização têm sido os fatores mais importantes", diz Kahtalian.

Há duas razões que explicam porque esses imóveis são alugados mais rapidamente. Uma é a preferência de algumas empresas, em especial multinacionais - há companhias que têm por política reduzir ao mínimo seu impacto ambiental. Outra razão, mais importante, é que um escritório verde pode ter custo fixo menor. "Com a certificação, tivemos economias reais de energia e de água, que se refletem nas taxas do condomínio. Acaba sendo mais vantajoso", explica Eduardo Schulman, da Top Imóveis, incorporador do Curitiba Office Park, primeiro prédio de Curitiba a obter a certificação de Líder em Energia e Design Ambiental (Leed, na sigla em inglês), concedida pela organização norte-americana US Green Building Council.

Para o consultor Marcos Kahtalian, da Brain Bureau de Inteligência Corporativa, a proporção de prédios certificados em Curitiba se dá em decorrência de uma circunstância de mercado. Os empreendimentos corporativos ficaram "represados" por um tempo na cidade e a retomada só ocorreu depois de 2009 - momento em que surgia a demanda pelos edifícios sustentáveis. "Os empreendedores passaram a ver isso
como uma referência, uma premissa", explica Kahtalian. "Quem não tiver certificação não é competitivo." Os grandes eventos esportivos que o Brasil vai receber também têm servido de incentivo para a incorporação de prédios verdes. O Green Building Council (GBC) Brasil, órgão que certifica as construções pelo selo Leed no país, firmou um protocolo de entendimentos com o Comitê Olímpico Brasileiro para que as obras que servirão aos Jogos Olímpicos sejam certificadas.

Somados aos projetos comerciais, essa demanda vai ajudar a praticamente dobrar o número de projetos em análise para certificação em todo o Brasil, para mais de 400 em 2011, ante 211 no ano passado. Marcos Casado, gerente técnico do GBC Brasil, diz que nove dos 12 estádios da Copa do Mundo estão em processo de certificação. Só estão de fora o Itaquerão, em São Paulo, o Beira Rio, em Porto Alegre e a Arena da Baixada, em Curitiba.

Edifícios antigos ganham novo uso e ficam mais sustentáveis
No Rio de Janeiro, a maior parte dos lançamentos "verdes" deve ocorrer no Centro, área que passa por uma ampla revitalização. Segundo João Pacheco, diretor de Engenharia e Sustentabilidade da Cushman & Wakefield, a região central concentra grandes projetos de reforma, conhecidos como retrofit, em que edifícios antigos são praticamente reconstruídos seguindo os padrões exigidos pelas certificações ambientais. "O Rio é o campeão em transformações de edifícios velhos em edifícios verdes", afirma Pacheco.

O exemplo mais recente desse tipo de obra é o Edifício Marques dos Reis, localizado na Praça Pio X, que foi relançado pela Previ. Construído em 1940, o prédio, de 10 mil metros quadrados, passou por uma reforma completa nos últimos dois anos para incluir sistemas de economia de energia, água e de redução de resíduos. Na reforma, o edifício recebeu sistemas para a economia de energia, como elevadores inteligentes e sensores de presença para o controle de iluminação. Ganhou também um gramado no terraço para absorver melhor a água da chuva e controlar a temperatura do prédio. Ao todo, foram investidos cerca R$ 32 milhões na obra. "Decidimos buscar o selo verde no ano passado, quando a reforma já estava em andamento. Isso trouxe um custo adicional de cerca de R$ 2 milhões para o projeto", diz Marco Geovanne, diretor de participações da Previ, acrescentando que o preço do aluguel do metro quadrado no edifício, que não chegava a R$ 20, agora deve superar os R$ 100.

A arquiteta Sandra Pinho Pinheiro observa que, em Curitiba, os prédios antigos ainda sofrerão com a concorrência dos novos. "À medida que os novos edifícios chegarem ao mercado, eles devem perceber a necessidade de fazer mudanças. Modernizar o sistema de ar condicionado, por exemplo", diz.

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